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Desabafo de um Professor da UNIR

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Desabafo de um Professor da UNIR que sofreu racismo no posto da Polícia Federal de Vilhena

por Paulo Sérgio Dutra 

No último dia 17 de maio/2011, o ônibus em que eu viajava para um evento no Instituto de Educação na UFMT foi parado pela Polícia Rodoviária Federal. Eu estava sentado na poltrona 21 e atrás de mim estava um senhor branco e forte que o policial tratou com muita cordialidade, perguntando-lhe o nome, a profissão, para onde estava viajando e o que iria fazer. Os policiais pegaram os documentos de uma série de pessoas. Quando chegou à minha vez, pediu meus documentos e apenas perguntou para mim e um rapaz que estava do meu lado de onde estávamos vindos e se estávamos juntos. O rapaz respondeu que estávamos juntos, referindo-se ao fato de estarmos sentados em poltronas ladeadas. Os policiais então nos fizeram descer. Eu (o negro com mais melanina na pele) e outros dois negros (ou quase negro ou quase branco, como queiram). Eu ainda ensaiei perguntar o porquê pediam para eu descer, mas não tive tempo de terminar e fui bruscamente interrompido por um ríspido e imperativo comando para descer. Entre os que desceram, eu era o único que tinha bagagem só de mão. Os outros dois tinham bagagem também no bagageiro.

Quando estava no chão, o policial abriu minha bolsa e não encontrando nada a fechou. Em seguida, pedi licença e perguntei por que ele havia retirado apenas dois negros e um pardo de ônibus. Ele encostou sua “cara” no meu “rosto” e esbravejando com salivas a saltar disse que eu e o moço, que estava ao meu lado, éramos “suspeitos”. (Somente eu presencie essa fala. O outro praticamente não ficou no solo e subiu rapidamente para o ônibus). Não entendi por que ele me fez ficar em solo. Insisti para que me dissesse o porquê daquilo e ele me perguntou se eu sabia o que “ia de Ji-Paraná para lá”. Eu disse, sem recuar, que ia carro, pessoas...

Ao insistir dizendo que aquilo se tratava de racismo, alguns policiais encostaram. Em seguida disse que era professor da universidade. De nada adiantou. Fui revistado de maneira abrupta. Uma policial de nome Andréia apresentou-se ao meu lado e eu pedi licença para ela pedindo uma explicação para aquela situação, procurando entender, falei:“se eles estavam procurando algo nos pertences de alguém que havia embarcado em Ji-Paraná, eles deveriam pedir para outras pessoas que haviam embarcado descerem”. Ela me disse que era difícil e demorado; eles faziam aquilo por “amostragem”. Mas o que é amostragem?

Ao subir para o ônibus apresentei-me como professor da UNIR para as pessoas que também estavam de viagem e perguntei a eles por que os policiais haviam pedido apenas para dois negros e um pardo descer. Será que aquilo era racismo? Afinal não deviam todos ter sidos submetidos à igual processo como fizeram comigo? Por que não deram o mesmo tratamento a minha pessoa como fizeram com o médico?

Tão logo eu ocupei meu acento, os policiais entram e, devido terem ouvido a minha conversa com os passageiros, disseram que aquele era o seu trabalho e que infelizmente alguém ali havia “se doído”, e que ele não tinha uma luz na testa para adivinhar as coisas. Em resposta perguntei-lhe: por que a luz dele havia acendido somente para mim? Após meu questionamento um policial branco olhou-me com olhar de reprovação, como se dissesse que eu devesse reconhecer o meu lugar e ficar calado.

Dali em diante, não dormi mais. Passei a noite no ônibus em claro, tentando reunir forças para superar aquele momento de humilhação. Pensei nos milhares de pessoas que costumeiramente são tratados como elementos de amostragem dos policiais em diversas regiões do País. Pensei naquele e naquela que são obrigados a ficar calados diante da truculência policial porque a sua pele tem maior melanina que a média da população.  Pensei naqueles e naquelas que nas esquinas, nos bancos, nos ônibus, nas ruas são tidos como “gente suspeita” pelo simples fato de serem mulheres e homens de peles pretas iguais a minha.

Chegando em Cuiabá não resisti e chorei. Chorei a minha dor, minha angústia. Mas chorei também pelos muitos sem voz, sem vez e ditos suspeitos porque esse caso não ofende apenas a minha pessoa. Ofende a todo negro brasileiro e toda negra brasileira. A toda e toda criança cujas peles são pretas. Cujos cabelos são encarapinhados. Não faço disso um show. Eu apenas me levanto contra o que sempre fizeram conosco. Muitos e muitas agora podem estar passando pelo mesmo que eu, porém a falta de oportunidade para compreender através da educação como o racismo a brasileira se dá os faz calar.

Vamos nos mobilizar. Podemos acionar os jornais escritos. A televisão. Os jornais na internet. Na sessão das câmaras municipais. Poderíamos marcar um encontro com Padre Tom. Se possível um encontro com o Ministro da Justiça. A Ex Senadora Fátima Cleide. O Sintero.

Digo e repito esse não um problema só meu, em de todos os negros e negras que poderão sofrer o mesmo a qualquer momento.

Abraços e “A SOLARIEDADE É NOSSA MAIOR ARMA”
Até breve, companheiras e companheiros.
Paulo Sérgio Dutra - Universidade Federal de Rondônia - Campus de Ji-Paraná

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