Claudemir da Silva Paula
Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Professor no Campus de Vilhena
29/09/2011
Não havia me posicionando em relação à greve na Unir por dois motivos: não fui consultado (aliás, nem eu nem os mais de 45 docentes que trabalham no mesmo campus) e não recebi uma pauta de reivindicação que me ajudasse tomar uma decisão (na verdade o desconhecimento da pauta de greve é uma situação comum em todos os campi da universidade). Insisti, por diversas vezes com o chamado comando de greve, que me fosse enviado os pontos de reivindicações e, quando achei que elas chegariam, fui surpreendido com uma mudança radical na condução da greve. Da luta por mudanças (ainda não soube ao certo quais eram elas) agora temos um declarado processo de boicote ao processo democrático. Desculpe-me os pares, mas é isso que eu consigo visualizar.
Como os demais, tenho muitas coisas com as quais não concordo na atual gestão da Unir. E por ser do interior, teria até muito mais coisas para me posicionar favorável à greve. É demasiado, às vezes, ter que esperar um ano ou mais pelo retorno de um processo de institucionalização de pesquisa; É desestimulante ter que ficar ligando para Porto-Velho para buscar compreender como se faz a institucionalização de um grupo de pesquisa quando isto é de fácil acesso nos sites de outras universidades. É triste não compreender os mecanismos de distribuição de diárias e ver que alguns têm esse direito e outros se quer tem chance de pleiteá-las.
E não posso dizer que não foi frustrante receber um documento mostrando que, no período em que se anunciava cancelamento de uma reunião de conselho, o reitor recebeu diárias para viajar para Europa (nada contra a viagem do Reitor, ele tem esse direito). Também não posso dizer que fiquei feliz ao me dar conta de que não há uma rotina elabora para assegurar o cumprimento dos atos legais vigentes na Unir; que não há sistemática de acompanhamento das alterações na legislação pertinente; que as atas dos conselhos que deveriam estar na página da instituição deixaram de ser publicadas há mais de três anos; que prédios prontos continuam sem funcionar porque a empresa não cumpriu com o contratado; que mesmo havendo uma lousa digital no meu campus, com potencial para cursos on line, ela não pode ser usada, pois não temos tecnologia suficiente de comunicação ou não se tem autorização para uso; que o PARFOR e a UAB são organismos complexos de dificilíssimo acesso.
Essas e tantas outras questões aparentemente simples, certamente, me causam um sentimento ruim e, às vezes, até de revolta. Mas esse meu sentimento raivoso, não é capaz de me tirar a minha lucidez. Não me tira a capacidade de raciocínio. Uma coisa é lutar por mudanças na Unir, justas e necessárias. Outra bem diferente é tentar, a qualquer custo e a qualquer preço, fazer valer a vontade de alguns poucos em detrimento da maioria. Uma coisa é uma greve de reivindicações; outra é o boicote, a usurpação do meu direito de decidir; o querer ganhar as coisas no grito, sem se importar com as conseqüências. Posso não concordar com atual maneira de fazer gestão na Unir, mas não posso ser insano e pensar que usurpar o poder seja um ato de justiça.
Poderia até fazer grave, pelos motivos aqui expostos, mas não posso fazer frente ou ficar calado a um “fora reitor”, como se isso fosse a solução de nossos problemas. Não posso ser ingênuo e achar que as coisas não acontecem na Unir por pura falta de vontade do Reitor. Isso seria desconsiderar que onde existem pessoas sempre existirá a possibilidade de se produzir inúmeras situações que transparecerão como irresponsabilidades do diretor máximo da intuição. Igualmente, estaria deixando de considerar o que a recente história nos mostra: atos nesses moldes e dessa natureza (fora reitor) sempre foram desastrosos. Começa-se destituído um, e depois espalha-se o processo com todos aqueles que se posicionar contra. Não é isso que já começamos a presenciar? Ontem era “fora reitor”, agora já temos o “fora presidente da Adunir”, e amanhã quem será o próximo? Eu, que ouso me colocar contra? Minha diretora? Minha chefe de departamento? Não foi assim que o golpe de 64 começou? Vamos destituir o governo, moralizá-lo e devolver a população. E quantos anos de luta para fazê-los deixar o poder...
Para dar um exemplo mais próximo o SindSaude/RO acabou de sair de uma intervenção. Era para durar apenas um mês... Foram quase dois anos e só terminou porque a intervenção se tornou insustentável. Pergunto: a quem interessa uma intervenção? Quem seria beneficiado com isso? Que vantagens a Unir teria ao receber alguém de fora sem nenhum compromisso com a região? Quantos anos teríamos que suportá-la?
Certamente essas respostas, apesar de possíveis, são todas de difícil precisão. Umas por ter motivações políticas, externas a Unir; outras por não se ter condições de prever os resultados das ações de alguém que assume o poder centralizando toda e qualquer decisão. Uma coisa é certa: tudo será paralisado. Pró-reitores destituídos; diretores desnomeados; ações de controle implantadas; E cada vez mais e mais; Talvez um retorno ao nosso processo histórico nos ajude a entender que toda vez que permitimos que o poder fosse tomado à força sempre resultou em dor e sofrimento; que sempre que se permitiu que as entidades de poder fossem destituídas, o retorno ao estado de direito nunca aconteceu de forma pacífica, mas sob prolongadas reivindicações; que aceitar a intervenção, ainda que nos pareça algo acertado, é dizer não o nosso direito de escolher o reitor, o diretor de núcleo ou campus, o chefe de departamento; que assinar uma petição “fora reitor” é assinar um procuração em branco, dando ao outorgado, plenos poderes sobre nossas vidas.
Por outro lado, não concordar com o “fora reitor” não significa que aceito pacificamente as atuais condições da Unir; que as coisas devam continuar como estão e que mudanças urgentes não precisam ser feitas. Apenas manifesto o meu desejo de continuar tendo o direito de brigar por aquilo que acredito, mas dentro dos parâmetros legais e democráticos. Disso não abro mão e nem autorizo ninguém a fazê-lo por mim. Quanto à greve, creio que ela não pode mais continuar pelo simples fato de não mais representar uma instância de luta e reivindicações.
Para comentar clique aqui:
Comentário(s) (2)





